quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Varjota: Perímetro Irrigado Araras Norte vive seu pior momento pela seca


Perda neste ano da produção de banana foi total
Varjota. Este município vive atualmente a pior crise hídrica de sua recente história. O Açude Araras, construído em 1958, nem de longe lembra a colossal barragem, com 1.000.000.000 m³ de capacidade de armazenamento. Hoje, tem menos de 8% desse total. A Prefeitura cavou dez poços nas localidades vizinhas. O atendimento por carros-pipas terá reforço do Exército, com a aquisição de mais dois desses veículos, que retirarão água do Açude Taquara, a 48 quilômetros da cidade. Apesar das medidas, a população, por conta própria, cavou mais 50 poços em busca de água. A vazão, porém, tem sido insuficiente para o abastecimento.
Glerton eDep.Danilo com
produtores no Perímetro(fotoRLN)
De acordo com Rocineuda Ferreira Pires, secretária de Agricultura, "apesar da escavação de poços, e da tentativa de encontrarmos água, os agricultores familiares têm sentido queda de 40% de sua produção, destinada ao Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), de acesso à alimentação e incentivo à agricultura familiar e ao Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), o que nos deixa sem saída para ações mais efetivas, a não ser esperar pelas chuvas de dezembro", disse.
Fruticultura

Varjota faz parte do Comitê da Bacia Hidrográfica do Acaraú, que mantém 14 açudes públicos gerenciados pela Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos (Cogerh), abastecendo outros 27 municípios. Tem no Perímetro Irrigado Araras Norte, localizado a 5 quilômetros da sede, o carro-chefe de sua economia, com forte apelo para a fruticultura, que gerava em média R$ 8 milhões por ano.

O perímetro, de responsabilidade do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (Dnocs), possui 37 quilômetros de canais que rasgam a terra até alcançar cinco estações de distribuição de água, construídas para irrigar 1.030 hectares de área cultivável, que hoje, não passam de 250.

Depois do fechamento gradativo das comportas do Araras, finalizado em março deste ano, o perímetro passou a receber apenas 170 litros de água por segundo, o que equivale a duas horas e meia de abastecimento, quantidade insuficiente para minimizar o colapso da falta d'água nos lotes. Para o secretário de Recursos Hídricos de Varjota, Raimundo Gomes Filho, "o que as famílias de irrigantes estão recebendo de água, por dia, é apenas para eles não abandonarem os lotes, porque não dá para nada", afirmou.

A produção de banana responde por 60% do cultivo de frutas, seguida da goiaba (20%), do mamão (10%) e do coco (10%), chegava a 40 toneladas por hectare, em períodos de boa safra, comercializada principalmente na Serra da Ibiapaba (região Norte). Segundo os produtores, a perda deste ano foi total, pois mesmo os poucos cachos que vingaram não atingiram a qualidade necessária para comercialização, atraindo pragas e afastando o comprador.

A falta de água, além de atingir diretamente a economia gerada pelo perímetro irrigado, tem se refletido na permanência de quem depende diretamente da água que sai da rede de canais para manter seu sustento. A estiagem tem causado um êxodo rural nunca visto antes. Hoje, apenas 30% das áreas de cultivo se mantêm firmes. Os outros 70% do total do perímetro foram abandonados pelas famílias, deixando para trás os pés de frutas, que secam até cederem à força do vento e caírem. Segundo Gentil Fontenele, engenheiro agrônomo da Secretaria de Agricultura de Varjota, "é triste ver as famílias abandonarem seus lotes e deixarem para trás o investimento de toda uma vida. Isso cria outro problema que são os roubos das propriedades que ficam sem cuidado", disse.

O produtor Francisco Teixeira Rodrigues, que há cinco anos deixou São Paulo para investir em bananas no Ceará, é um dos poucos que permanecem no lote, que antes produzia 2 mil caixas da fruta por mês, e na última colheita não passou de 40 caixas. Dos oito funcionários contratados para dar conta da demanda, três tiveram de ser dispensados. Os que ficaram se mantêm fazendo outros trabalhos dentro da propriedade, até porque não há o que colher. "Eu nunca vi seca como esta, aqui na região. Ainda não desisti de lutar no meu lote, mas, se não chover, pelo menos até dezembro, terei que deixar tudo para trás", lamentou.

Denominado Condomínio, o Distrito de Irrigação do Perímetro Araras Norte (Dipan) pagou só de energia no mês de agosto R$ 60 mil para se manter funcionando, ou melhor, para manter apenas as mudas que restaram vivas. É o que afirma Odilon Brum, gerente do Dipan. "Nós estamos pagando uma conta que não vem acompanhando a realidade de quem sobrevive da terra. Cerca de R$ 30 mil reais dessa conta não é de demanda, não é de consumo, pois nem produção tem mais para se cobrar uma conta dessas. Acredito que deveríamos pagar apenas o que consumimos, mas isso não acontece", afirma o gerente.

Dívidas

As contas adquiridas junto aos bancos para investimento, também se acumulam nas mãos dos produtores, que não têm como saldar seus compromissos. "Eu entreguei um documento pessoalmente à presidente Dilma e ao ministro da Agricultura, pedindo que eles intercedam junto ao Banco do Nordeste para a suspensão temporária dessas dívidas contraídas. Mas até o momento não obtive resposta. O pequeno agricultor não quer fugir de sua responsabilidade. Mas como vai pagar uma dívida, se não tem o que comercializar?", indaga Odilon Brum.

A produtora Francisca das Chagas Rodrigues teve seu auge no cultivo de goiabas quando, em 2012, chegou a comercializar cerca de R$ 40 mil em duas safras. Com a perda total neste ano, ela retirou da área plantada as mangueiras de irrigação e os guinchos, equipamentos usados no manejo da plantação.

"Quem ainda consegue produzir algo, não tem qualidade, então essa fruta não tem preço. Eu perdi toda a minha primeira safra deste ano. A gente produzia 700 caixas em tempo bom, mas, nessa segunda colheita, que vai de julho a dezembro, já perdemos 50%. Só com muita em fé em Deus mesmo para não desistir e deixar tudo para trás".
A perda neste ano da produção de banana foi total; os poucos cachos que vingaram não atingiram a qualidade necessária para comercialização ( Fotos: Marcelino Júnior )

O canal alcança cinco estações de distribuição de água, construídas para irrigar 1.030 hectares de área cultivável, que hoje não passam de 250 ha.

Mais informações:

Distrito de Irrigação do Perímetro Araras Norte (Dipan)

Telefone: (88) 9 9714-0004

Fonte: Diário do Nordeste

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